segunda-feira, 16 de junho de 2014

A VAIA À DILMA

“Ei, Dilma, vai tomar no c...”, ouvido no jogo de abertura da Copa nas quatro vezes em que a presidente apareceu no telão, foi um xingamento ou vaia? Digo que é apenas uma vaia, uma vaia absolutamente comum, quase protocolar. Quem se horroriza é porque não conhece um estádio de futebol. Hoje li jornalista dizendo que é a vaia das elites com medo de perder seus privilégios, porque a copa é para as elites. Eu não aguento mais esse papo de “Zelites”! Tudo é culpa da Zelites... Que saco! A Dona Zelites não tem nada a ver com isso. Uai, não vivem dizendo, com razão, que o povo ascendeu de classe? É claro que muitos não puderam comprar ingresso para ir ao jogo de abertura, mas muitos, milhares, que não tem nada a ver com a Zelites conseguiu, sim, comprar ingresso. Economizou, fez o diabo, mas também estava lá, junto com os remediados (ainda existe essa categoria?) e com os ricos.

O que mais havia na torcida era torcedor mesmo, gente comum, pobre ou rica, que nos últimos anos vem fugindo dos estádios por causa da violência e da má qualidade dos espetáculos. Torcedor torce, e ponto final. Torcedor segue o código dos estádios. O xingamento à Dilma é só um tipo de vaia, dos mais comuns em todos os estádios do Brasil. Diariamente grita-se “Ei, juiz, vai tomar no c...”, “ei, fulano, vai tomar no c...”. É de mau gosto? É claro que é. É fino? É claro que não. Mas é o código dos estádios.


Sempre conto que levei minha então esposa ao Moisés Lucarelli, o Majestoso, estádio da gloriosa Ponte Preta, para ver Ponte x Portuguesa. Todo mundo estava gritando contra o juiz. Gritavam tanto o indefectível “ei, juiz, vai tomar no c...”, como vários outros xingamentos. E a Aline lá, observando. Num lance em que ela achou que o juiz errou, se levanta e, em plenos pulmões, com a torcida em total silêncio, grita “Juiz desonestooo”! É claro que todo mundo olhou prá trás, achando estranho aquele grito. Eu me encolhi de vergonha. Pobre Aline, não conhecia o código dos estádios. Tive que ensiná-la que não é assim, que lá dentro o certo é gritar “filho da puta”, “seu veado” (mesmo os gays gritam “veado” para o juiz), até o velho “filho de guarda noturno com Maria metedeira”, xingamento que eu julgava extinto, ainda aparece vez por outra. Expliquei a ela que falar que o cara é desonesto, além de ser contra o código dos estádios, não é libertador. “Mas eu não quero me libertar, não me sinto presa”, respondeu ela. Mas eu insisti. Tenta, só uma vez. Num outro “erro” do juiz contra a Ponte, ela gritou “seu filho da puta!”. Seus olhos chegaram a brilhar de felicidade, olhos radiantes de quem está livre.

E tem mais: quantas e quantas vezes todos nós ouvimos pela TV, em jogos do Brasil, a torcida gritar “Ei, Galvão, vai tomar no c...”? Reclamamos disso? Alguém disse que a Zelites é contra o Galvão? Quantas vezes o Galvão se pronunciou a respeito? Nunca, que eu saiba. Ele não liga, está sempre nos estádios, conhece os códigos. Agora pensemos: quantos jornalistas ficaram indignados com o desrespeito a um profissional tão sério como o Galvão? Nunca vi ninguém indignado defendendo o Galvão.

Agora ao cerne da questão (acho “cerne” tão chique! Só não vá falar “cerne” num estádio): porque se xinga o Juiz? Porque ele detém o poder de decidir se é pênalti ou não, se nosso time vai ganhar ou não. Porque se xinga o melhor jogador adversário, o Messi, por exemplo, que hoje foi xingado no Maracanã? Ora, porque é o craque adversário quem mais tem o poder de ameaçar o nosso time. Porque se xinga o Galvão? Porque ele representa a emissora oficial, que por muitos anos teve o monopólio das Copas e ainda exerce o monopólio sobre as transmissões dos campeonatos estaduais e brasileiro; Galvão, a voz oficial da emissora oficial, representa, em última análise, o poder. Porque se xinga a Dilma? Simplesmente porque ela é o poder! (Sem se esquecer que ela também representa o Lula, que há sete anos prometeu publicamente que não haveria um único tostão público na construção dos estádios, mas não acho que isso seja o essencial da vaia). 

O fato é que estádio é lugar de libertação, é o lugar em que todos somos contra o poder, contra o sistema. Só isso. Posso apostar que muitos dos que vaiaram a Dilma votaram ou vão votar nela. Não dá pra misturar alhos com bugalhos (o que será que é o tal de “bugalhos”, ein?). Vaia no estádio não é ato político. Torcida no estádio é apolítica, apartidária. Acho que até a Dona Zelites vai lá para se libertar de ser Zelites...

Eu disse que o Galvão nunca se pronunciou a respeito, e que fez bem. E a Dilma, devia ter se pronunciado? É claro que sim! Iriam ela e seu partido perder uma chance dessa? Tem mais é que tirar proveito. A bobagem não é dela, mas dos jornalistas, boçais, oportunistas, tendenciosos ou simplesmente, como um dia foi minha ex, ignorantes dos códigos dos estádios. Aconselho a todos um chá de estádio, de preferência um sem cadeiras, daqueles em que a gente se senta no cimento quente e não vê a hora de poder levantar e gritar palavrões deliciosos.

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