“Ei, Dilma, vai tomar no c...”, ouvido no jogo de abertura da Copa nas quatro vezes em que a presidente apareceu no telão, foi um
xingamento ou vaia? Digo que é apenas uma vaia, uma vaia absolutamente comum,
quase protocolar. Quem se horroriza é porque não conhece um estádio de futebol.
Hoje li jornalista dizendo que é a vaia das elites com medo de perder seus
privilégios, porque a copa é para as elites. Eu não aguento mais esse papo de “Zelites”!
Tudo é culpa da Zelites... Que saco! A Dona Zelites não tem nada a ver com isso. Uai,
não vivem dizendo, com razão, que o povo ascendeu de classe? É claro que muitos
não puderam comprar ingresso para ir ao jogo de abertura, mas muitos, milhares,
que não tem nada a ver com a Zelites conseguiu, sim, comprar ingresso.
Economizou, fez o diabo, mas também estava lá, junto com os remediados (ainda
existe essa categoria?) e com os ricos.
Sempre conto que levei minha então esposa ao Moisés Lucarelli, o Majestoso, estádio da gloriosa Ponte Preta, para ver Ponte x Portuguesa. Todo mundo estava gritando contra o juiz. Gritavam tanto o indefectível “ei, juiz, vai tomar no c...”, como vários outros xingamentos. E a Aline lá, observando. Num lance em que ela achou que o juiz errou, se levanta e, em plenos pulmões, com a torcida em total silêncio, grita “Juiz desonestooo”! É claro que todo mundo olhou prá trás, achando estranho aquele grito. Eu me encolhi de vergonha. Pobre Aline, não conhecia o código dos estádios. Tive que ensiná-la que não é assim, que lá dentro o certo é gritar “filho da puta”, “seu veado” (mesmo os gays gritam “veado” para o juiz), até o velho “filho de guarda noturno com Maria metedeira”, xingamento que eu julgava extinto, ainda aparece vez por outra. Expliquei a ela que falar que o cara é desonesto, além de ser contra o código dos estádios, não é libertador. “Mas eu não quero me libertar, não me sinto presa”, respondeu ela. Mas eu insisti. Tenta, só uma vez. Num outro “erro” do juiz contra a Ponte, ela gritou “seu filho da puta!”. Seus olhos chegaram a brilhar de felicidade, olhos radiantes de quem está livre.
E tem mais: quantas e quantas vezes todos nós ouvimos pela
TV, em jogos do Brasil, a torcida gritar “Ei, Galvão, vai tomar no c...”? Reclamamos
disso? Alguém disse que a Zelites é contra o Galvão? Quantas vezes o Galvão se pronunciou a respeito? Nunca, que eu saiba. Ele
não liga, está sempre nos estádios, conhece os códigos. Agora pensemos: quantos
jornalistas ficaram indignados com o desrespeito a um profissional tão sério
como o Galvão? Nunca vi ninguém indignado defendendo o Galvão.
Agora ao cerne da questão (acho “cerne” tão chique! Só não vá
falar “cerne” num estádio): porque se xinga o Juiz? Porque ele detém o poder de decidir se é pênalti
ou não, se nosso time vai ganhar ou não. Porque se xinga o melhor jogador
adversário, o Messi, por exemplo, que hoje foi xingado no Maracanã? Ora, porque
é o craque adversário quem mais tem o
poder de ameaçar o nosso time. Porque se xinga o Galvão? Porque ele
representa a emissora oficial, que por muitos anos teve o monopólio das Copas e
ainda exerce o monopólio sobre as transmissões dos campeonatos estaduais e brasileiro;
Galvão, a voz oficial da emissora oficial, representa, em última análise, o poder. Porque se xinga a Dilma? Simplesmente porque ela é o poder! (Sem se esquecer que ela também representa o Lula, que há sete anos prometeu publicamente que não haveria um único tostão público na construção dos estádios, mas não acho que isso seja o essencial da vaia).
O fato é que estádio é lugar de libertação, é o lugar em que todos somos contra o poder, contra o sistema. Só isso. Posso apostar que muitos dos que vaiaram a Dilma votaram ou vão votar nela. Não dá pra misturar alhos com bugalhos (o que será que é o tal de “bugalhos”, ein?). Vaia no estádio não é ato político. Torcida no estádio é apolítica, apartidária. Acho que até a Dona Zelites vai lá para se libertar de ser Zelites...
O fato é que estádio é lugar de libertação, é o lugar em que todos somos contra o poder, contra o sistema. Só isso. Posso apostar que muitos dos que vaiaram a Dilma votaram ou vão votar nela. Não dá pra misturar alhos com bugalhos (o que será que é o tal de “bugalhos”, ein?). Vaia no estádio não é ato político. Torcida no estádio é apolítica, apartidária. Acho que até a Dona Zelites vai lá para se libertar de ser Zelites...
Eu disse que o Galvão nunca se pronunciou a respeito, e que
fez bem. E a Dilma, devia ter se pronunciado? É claro que sim! Iriam ela e seu partido
perder uma chance dessa? Tem mais é que tirar proveito. A bobagem não é dela,
mas dos jornalistas, boçais, oportunistas, tendenciosos ou simplesmente, como
um dia foi minha ex, ignorantes dos códigos dos estádios. Aconselho a todos um
chá de estádio, de preferência um sem cadeiras, daqueles em que a gente se
senta no cimento quente e não vê a hora de poder levantar e gritar palavrões deliciosos.






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