Hoje de
manhã estava eu passeando com minha cachorrinha quando, no pilotis de um bloco,
vi um rato. Não um pequenino e igualmente odioso camundongo, nem uma ratazana
enorme e nojenta. Um rato, desses de rua, ou esgoto, sei lá. Não há criatura
mais asquerosa e detestável que um rato, qualquer rato, seja camundongo, seja
ratazana. Não falo daqueles branquinhos de laboratório porque com estes nunca
toparemos andando na rua. A questão é: porque odiamos tanto os ratos? Em “Bastardos
Inglórios”, de Tarantino, há o seguinte diálogo:
Hans Landa –
Se um rato entrasse pela sua porta da frente agora, o senhor o receberia com
hostilidade?
LaPadite – Suponho que sim.
LaPadite – Suponho que sim.
...
Hans Landa – Se um rato entrasse aqui agora, enquanto
estou falando, o senhor o receberia com um pires do seu delicioso leite?
LaPadite –
Provavelmente não.
Hans Landa –Você
não gosta deles. Não sabe por que não gosta deles. Só sabe que os acha
repulsivos.
Ratos são esquivos, pulam como
pulgas, sobem nas coisas, são rápidos demais, assustadoramente rápidos. Nunca
sabemos qual direção tomará e isso nos horroriza: ele pode vir pra cima de nós
e não haverá defesa. Mas o rato de hoje, antes que eu saísse correndo com a
Amelie, fugiu para longe de nós, para trás do bloco. Só que, na hora de descer
um degrauzinho de menos de um palmo, ele relutou. Ficou olhando para baixo, pôs
as patas dianteiras bem na beira do degrau, deu uma tremidinha, como aquela que
damos antes de decidir pular de algum lugar alto. E conseguiu descer, para
depois se escafeder para sei lá onde. Aquela relutância e a forma como
finalmente desceu acabou com meu medo e abrandou muito o meu asco, deixou,
enfim, de ser tão detestável, o que me fez pensar a respeito.
Ratos não são fofos como cães,
bonitinhos como peixes, não cantam como os pássaros, não brincam como gatinhos.
Amamos os cães porque eles dormem como a gente, conversam conosco, nos
defendem, brincam. Já os ratos não fazem nada que pudesse deixa-los mais
parecidos com os humanos. Sua única relação conosco é quando invadem nossa casa
e comem nossa comida. Mas a relutância e o medo que o rato teve daquela altura de
nada meio que “humanizaram” o pobre roedor, que saiu do episódio até com uma boa
imagem comigo.
Já que falei de roedor, passemos então
ao mordedor. Suárez, extraordinário jogador uruguaio, no jogo contra a Itália enfiou
os dentes num italiano. O juiz não viu e, portanto, não o expulsou. Mas as
duzentas câmeras mostraram para todo o mundo. Depois as TVs começaram a mostrar
também outras duas outras mordidas de Soares, uma jogando o campeonato Holandês
e outra, o Inglês. Todo mundo pediu sua punição. É realmente repulsivo ver o
cara mordendo outros jogadores. Por quê? Pela razão inversa da que fez o rato
desta manhã acabar se saindo bem: o gesto desumanizou Suárez. Nós jogamos com
os pés, brigamos com as mãos, até com os pés, mas usar os dentes é algo que nos
aproxima dos animais, nos desumaniza.
Se pensassem um pouco mais,
consultassem algum psicólogo social, antropólogo, ou qualquer pessoa com um
mínimo de bom senso, a delegação uruguaia não teria feito tanta bobagem. Ontem,
Lugano, capitão da seleção uruguaia, disse que não foi nada (todos viram a
mordida), que são coisas normais de jogo (coisas normais são chutes, defesas, até
faltas e cotoveladas, mas mordida não), que todos estão querendo prejudicar o Uruguai
(bobagem gigantesca, o Uruguai é uma das seleções que mais despertavam
simpatia), comparou com outros lances violentos e até mais perigosos para a
integridade do agredido, querendo dizer algo como “uma mordidinha não dói”. Ou
seja, chamou todo mundo de burro e pôs em dúvida a organizadora do evento, a
poderosíssima e autoritária FIFA. Não bastasse essa boa quantidade de burrice, jornalistas
uruguaios adotaram a mesma postura. Até o presidente uruguaio, o simpático Mujica,
entrou na roda para defender Suárez. É muita burrice junta!
E olha que tiveram um dia inteiro
para planejar o que diriam. Resultado: Suárez foi punido por 9 jogos
internacionais e por quatro meses expulso de todas as atividades relacionadas a
futebol. Obviamente, se pensarmos apenas na mordida, a punição foi exagerada,
até meio absurda. É claro que a punição não foi só pela mordida - 2 ou 3
jogos de punição já ficava bem demais. O
peso da tunda foi pela reação uruguaia. O que pensou a toda poderosa FIFA? “Ah, estão dizendo que é esquema? Agora vem
até o presidente daquele pressionar, querendo influenciar nossa decisão? Pois então
toma essa!”
Qual seria a melhor estratégia para
os uruguaios? Pensar no meu rato. Humanizar, simples assim. Se no dia seguinte,
no lugar de mandarem o Lugano chamar o mundo inteiro de idiota, imagina se
fosse à entrevista coletiva o próprio Luisito Suárez. Imagina se, no lugar de negar
a mordida, ele viesse com a carinha de cãozinho fofo carente (que ele já tem
por natureza) e dissesse que o jogo estava nervoso, que seu país depositava
nele suas esperanças, que perdeu a cabeça, que foi uma agressão leve, que não chegou
a machucar nem colocar em risco o italiano (tudo isso que, aliás, é a mais pura
verdade). Se depois disso ele fechasse a entrevista pedindo desculpas ao
jogador italiano, ao público do mundo todo, e confesssse que está com problemas
e que iria se tratar depois da copa... Pergunto: a reação de todo o mundo e da
FIFA teria sido igual? Certeza que não. Não duvido que levasse um gancho leve, um
ou dois jogos de punição apenas.
Mas não fizeram nada disso. Pelo
contrário, partiram para a briga, ironizaram a imprensa brasileira, agrediram a
imprensa inglesa (que inclusive elegeu Suárez como o melhor jogador da
temporada inglesa), brigaram com as imagens, com o resto do mundo e com a FIFA
(que neste caso é mais poedrosa que o resto do mundo). A punição foi a derrota
da burrice e do comportamento bélico. No lugar de a imprensa agora ficar
questionando o peso realmente exagerado da punição, deveria questionar também,
e principalmente, o comportamento estratégico da delegação do Uruguai, incapaz
de pensar em como se sair bem na história toda.
Bom, ao menos é um alívio o fato de ninguém
ter dito que tudo é reação das elites...



















