quinta-feira, 26 de junho de 2014

O RATO, A MORDIDA E A BURRICE

Há perdão para tudo, até para a mordida, mas não para a burrice

Hoje de manhã estava eu passeando com minha cachorrinha quando, no pilotis de um bloco, vi um rato. Não um pequenino e igualmente odioso camundongo, nem uma ratazana enorme e nojenta. Um rato, desses de rua, ou esgoto, sei lá. Não há criatura mais asquerosa e detestável que um rato, qualquer rato, seja camundongo, seja ratazana. Não falo daqueles branquinhos de laboratório porque com estes nunca toparemos andando na rua. A questão é: porque odiamos tanto os ratos? Em “Bastardos Inglórios”, de Tarantino, há o seguinte diálogo:
Hans Landa – Se um rato entrasse pela sua porta da frente agora, o senhor o receberia com hostilidade? 
LaPadite – Suponho que sim.  
...
Hans Landa – Se um rato entrasse aqui agora, enquanto estou falando, o senhor o receberia com um pires do seu delicioso leite? 
LaPadite – Provavelmente não.
Hans Landa –Você não gosta deles. Não sabe por que não gosta deles. Só sabe que os acha repulsivos.
Ratos são esquivos, pulam como pulgas, sobem nas coisas, são rápidos demais, assustadoramente rápidos. Nunca sabemos qual direção tomará e isso nos horroriza: ele pode vir pra cima de nós e não haverá defesa. Mas o rato de hoje, antes que eu saísse correndo com a Amelie, fugiu para longe de nós, para trás do bloco. Só que, na hora de descer um degrauzinho de menos de um palmo, ele relutou. Ficou olhando para baixo, pôs as patas dianteiras bem na beira do degrau, deu uma tremidinha, como aquela que damos antes de decidir pular de algum lugar alto. E conseguiu descer, para depois se escafeder para sei lá onde. Aquela relutância e a forma como finalmente desceu acabou com meu medo e abrandou muito o meu asco, deixou, enfim, de ser tão detestável, o que me fez pensar a respeito.
Ratos não são fofos como cães, bonitinhos como peixes, não cantam como os pássaros, não brincam como gatinhos. Amamos os cães porque eles dormem como a gente, conversam conosco, nos defendem, brincam. Já os ratos não fazem nada que pudesse deixa-los mais parecidos com os humanos. Sua única relação conosco é quando invadem nossa casa e comem nossa comida. Mas a relutância e o medo que o rato teve daquela altura de nada meio que “humanizaram” o pobre roedor, que saiu do episódio até com uma boa imagem comigo.
Já que falei de roedor, passemos então ao mordedor. Suárez, extraordinário jogador uruguaio, no jogo contra a Itália enfiou os dentes num italiano. O juiz não viu e, portanto, não o expulsou. Mas as duzentas câmeras mostraram para todo o mundo. Depois as TVs começaram a mostrar também outras duas outras mordidas de Soares, uma jogando o campeonato Holandês e outra, o Inglês. Todo mundo pediu sua punição. É realmente repulsivo ver o cara mordendo outros jogadores. Por quê? Pela razão inversa da que fez o rato desta manhã acabar se saindo bem: o gesto desumanizou Suárez. Nós jogamos com os pés, brigamos com as mãos, até com os pés, mas usar os dentes é algo que nos aproxima dos animais, nos desumaniza.
Se pensassem um pouco mais, consultassem algum psicólogo social, antropólogo, ou qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, a delegação uruguaia não teria feito tanta bobagem. Ontem, Lugano, capitão da seleção uruguaia, disse que não foi nada (todos viram a mordida), que são coisas normais de jogo (coisas normais são chutes, defesas, até faltas e cotoveladas, mas mordida não), que todos estão querendo prejudicar o Uruguai (bobagem gigantesca, o Uruguai é uma das seleções que mais despertavam simpatia), comparou com outros lances violentos e até mais perigosos para a integridade do agredido, querendo dizer algo como “uma mordidinha não dói”. Ou seja, chamou todo mundo de burro e pôs em dúvida a organizadora do evento, a poderosíssima e autoritária FIFA. Não bastasse essa boa quantidade de burrice, jornalistas uruguaios adotaram a mesma postura. Até o presidente uruguaio, o simpático Mujica, entrou na roda para defender Suárez. É muita burrice junta!
E olha que tiveram um dia inteiro para planejar o que diriam. Resultado: Suárez foi punido por 9 jogos internacionais e por quatro meses expulso de todas as atividades relacionadas a futebol. Obviamente, se pensarmos apenas na mordida, a punição foi exagerada, até meio absurda. É claro que a punição não foi só pela mordida - 2 ou 3 jogos  de punição já ficava bem demais. O peso da tunda foi pela reação uruguaia. O que pensou a toda poderosa FIFA? “Ah, estão dizendo que é esquema? Agora vem até o presidente daquele pressionar, querendo influenciar nossa decisão? Pois então toma essa!”
Qual seria a melhor estratégia para os uruguaios? Pensar no meu rato. Humanizar, simples assim. Se no dia seguinte, no lugar de mandarem o Lugano chamar o mundo inteiro de idiota, imagina se fosse à entrevista coletiva o próprio Luisito Suárez. Imagina se, no lugar de negar a mordida, ele viesse com a carinha de cãozinho fofo carente (que ele já tem por natureza) e dissesse que o jogo estava nervoso, que seu país depositava nele suas esperanças, que perdeu a cabeça, que foi uma agressão leve, que não chegou a machucar nem colocar em risco o italiano (tudo isso que, aliás, é a mais pura verdade). Se depois disso ele fechasse a entrevista pedindo desculpas ao jogador italiano, ao público do mundo todo, e confesssse que está com problemas e que iria se tratar depois da copa... Pergunto: a reação de todo o mundo e da FIFA teria sido igual? Certeza que não. Não duvido que levasse um gancho leve, um ou dois jogos de punição apenas.
Mas não fizeram nada disso. Pelo contrário, partiram para a briga, ironizaram a imprensa brasileira, agrediram a imprensa inglesa (que inclusive elegeu Suárez como o melhor jogador da temporada inglesa), brigaram com as imagens, com o resto do mundo e com a FIFA (que neste caso é mais poedrosa que o resto do mundo). A punição foi a derrota da burrice e do comportamento bélico. No lugar de a imprensa agora ficar questionando o peso realmente exagerado da punição, deveria questionar também, e principalmente, o comportamento estratégico da delegação do Uruguai, incapaz de pensar em como se sair bem na história toda.
Bom, ao menos é um alívio o fato de ninguém ter dito que tudo é reação das elites...



segunda-feira, 16 de junho de 2014

A VAIA À DILMA

“Ei, Dilma, vai tomar no c...”, ouvido no jogo de abertura da Copa nas quatro vezes em que a presidente apareceu no telão, foi um xingamento ou vaia? Digo que é apenas uma vaia, uma vaia absolutamente comum, quase protocolar. Quem se horroriza é porque não conhece um estádio de futebol. Hoje li jornalista dizendo que é a vaia das elites com medo de perder seus privilégios, porque a copa é para as elites. Eu não aguento mais esse papo de “Zelites”! Tudo é culpa da Zelites... Que saco! A Dona Zelites não tem nada a ver com isso. Uai, não vivem dizendo, com razão, que o povo ascendeu de classe? É claro que muitos não puderam comprar ingresso para ir ao jogo de abertura, mas muitos, milhares, que não tem nada a ver com a Zelites conseguiu, sim, comprar ingresso. Economizou, fez o diabo, mas também estava lá, junto com os remediados (ainda existe essa categoria?) e com os ricos.

O que mais havia na torcida era torcedor mesmo, gente comum, pobre ou rica, que nos últimos anos vem fugindo dos estádios por causa da violência e da má qualidade dos espetáculos. Torcedor torce, e ponto final. Torcedor segue o código dos estádios. O xingamento à Dilma é só um tipo de vaia, dos mais comuns em todos os estádios do Brasil. Diariamente grita-se “Ei, juiz, vai tomar no c...”, “ei, fulano, vai tomar no c...”. É de mau gosto? É claro que é. É fino? É claro que não. Mas é o código dos estádios.


Sempre conto que levei minha então esposa ao Moisés Lucarelli, o Majestoso, estádio da gloriosa Ponte Preta, para ver Ponte x Portuguesa. Todo mundo estava gritando contra o juiz. Gritavam tanto o indefectível “ei, juiz, vai tomar no c...”, como vários outros xingamentos. E a Aline lá, observando. Num lance em que ela achou que o juiz errou, se levanta e, em plenos pulmões, com a torcida em total silêncio, grita “Juiz desonestooo”! É claro que todo mundo olhou prá trás, achando estranho aquele grito. Eu me encolhi de vergonha. Pobre Aline, não conhecia o código dos estádios. Tive que ensiná-la que não é assim, que lá dentro o certo é gritar “filho da puta”, “seu veado” (mesmo os gays gritam “veado” para o juiz), até o velho “filho de guarda noturno com Maria metedeira”, xingamento que eu julgava extinto, ainda aparece vez por outra. Expliquei a ela que falar que o cara é desonesto, além de ser contra o código dos estádios, não é libertador. “Mas eu não quero me libertar, não me sinto presa”, respondeu ela. Mas eu insisti. Tenta, só uma vez. Num outro “erro” do juiz contra a Ponte, ela gritou “seu filho da puta!”. Seus olhos chegaram a brilhar de felicidade, olhos radiantes de quem está livre.

E tem mais: quantas e quantas vezes todos nós ouvimos pela TV, em jogos do Brasil, a torcida gritar “Ei, Galvão, vai tomar no c...”? Reclamamos disso? Alguém disse que a Zelites é contra o Galvão? Quantas vezes o Galvão se pronunciou a respeito? Nunca, que eu saiba. Ele não liga, está sempre nos estádios, conhece os códigos. Agora pensemos: quantos jornalistas ficaram indignados com o desrespeito a um profissional tão sério como o Galvão? Nunca vi ninguém indignado defendendo o Galvão.

Agora ao cerne da questão (acho “cerne” tão chique! Só não vá falar “cerne” num estádio): porque se xinga o Juiz? Porque ele detém o poder de decidir se é pênalti ou não, se nosso time vai ganhar ou não. Porque se xinga o melhor jogador adversário, o Messi, por exemplo, que hoje foi xingado no Maracanã? Ora, porque é o craque adversário quem mais tem o poder de ameaçar o nosso time. Porque se xinga o Galvão? Porque ele representa a emissora oficial, que por muitos anos teve o monopólio das Copas e ainda exerce o monopólio sobre as transmissões dos campeonatos estaduais e brasileiro; Galvão, a voz oficial da emissora oficial, representa, em última análise, o poder. Porque se xinga a Dilma? Simplesmente porque ela é o poder! (Sem se esquecer que ela também representa o Lula, que há sete anos prometeu publicamente que não haveria um único tostão público na construção dos estádios, mas não acho que isso seja o essencial da vaia). 

O fato é que estádio é lugar de libertação, é o lugar em que todos somos contra o poder, contra o sistema. Só isso. Posso apostar que muitos dos que vaiaram a Dilma votaram ou vão votar nela. Não dá pra misturar alhos com bugalhos (o que será que é o tal de “bugalhos”, ein?). Vaia no estádio não é ato político. Torcida no estádio é apolítica, apartidária. Acho que até a Dona Zelites vai lá para se libertar de ser Zelites...

Eu disse que o Galvão nunca se pronunciou a respeito, e que fez bem. E a Dilma, devia ter se pronunciado? É claro que sim! Iriam ela e seu partido perder uma chance dessa? Tem mais é que tirar proveito. A bobagem não é dela, mas dos jornalistas, boçais, oportunistas, tendenciosos ou simplesmente, como um dia foi minha ex, ignorantes dos códigos dos estádios. Aconselho a todos um chá de estádio, de preferência um sem cadeiras, daqueles em que a gente se senta no cimento quente e não vê a hora de poder levantar e gritar palavrões deliciosos.

domingo, 15 de junho de 2014

ITÁLIA 2 X 1 INGLATERRA - QUE BELEZA!

O INCRÍVEL HULK Enquanto escrevo sobre a Itália, seleção que sempre é a que mais arranca suspiros da mulherada, ouço uma entrevista ao vivo do brasileiro Hulk. Sim, meninas que só se interessam por futebol na Copa, a seleção brasileira tem um jogador chamado Hulk. O quê? Já sabem? Ah, sim, entendo. A bunda do Hulk já deve ter chamado mais a atenção do que o Imobile, jogador de muita mobilidade da Itália.  Mas voltamos ao Hulk e ao que ele tem na cabeça, e não no corpo: ele acaba de dizer “Eu não tenho religião... Não tenho religião, mas tudo nessa vida eu peço à Deus, e eu pedi a Deus para que não fosse nada grave a minha contusão.” Hulk mostra que não é só um corpinho sarado, só uma bunda gigantesca! Agora sim, alguém vai prestar atenção no que eu vivo tentando explicar. Para quem não entende, não ter religião não significa ser ateu. Você pode perfeitamente acreditar na existência de Deus e não aderir às interpretações e às regras de uma determinada religião. Mais uma coisa: mesmo se não acreditar em Deus, você pode perfeitamente pedir coisas a ele, como bem lembrou Millor Fernandes: “Se Deus me der força e saúde, hei de provar que ele não existe”.


MEU DEUS, QUE BELEZA! Todo brasileiro, até os do nordeste, onde faz um calor que dá praia o ano todo, se impressiona com a fornalha que é Manaus. Eu, que odeio qualquer mínimo calorzinho, agradeço a Deus todos os dias por Manaus não ficar no caminho do meu trabalho, nem ser uma cidade daquelas que, vira e mexe, a gente tem que dar uma passada pra ir ao cartório ou visitar uma tia. Mas o Rafael, repórter jovem e descolado do SPORTV, sem considerar que Manaus é longe prá bedéu e que o resto do Brasil não costuma passar lá pra ir ao trabalho ou ao cartório, entrevistando Tiago Mota, brasileiro da seleção italiana, perguntou “Você, como brasileiro, está acostumado a este calor de Manaus, mas o que falam os seus companheiros italianos?”. Tiago Mota olhou incrédulo para a cara do repórter, deu uma risada tipo “seu dãããr” e respondeu: “Não estou acostumado não. Sou de São Paulo.” Da cabine, o excelente narrador Milton Leite, que também paga seus pecados com a equipe do Sportv, deve ter pensado “Meeeu Deus, que beleza!”


COMENTARISTA DE VISÃO O Fox Sports 2, que faz transmissão alternativa dos jogos, fez Itália x Inglaterra com o engraçado Paulo Bonfá, que fazia o “Rock Gol” na MTV, e um comentarista inusitado, o ceguinho Magela. As piadas, na verdade, não passaram muito das óbvias “e aí, como você está vendo o jogo?” ou “você achou que foi pênalti?”. Mas a simples ideia de colocar um comentarista cego, já é boa em si, ironiza a existência de comentaristas que não enxergam nada. Aliás, uma mesma rede fazer duas transmissões simultâneas de cada jogo, cada uma para um público diferente, já é excelente. A Fox Sports, que tem dois canais, já coloca vantagem sobre ESPN e Sportv, ambas com três canais. Ontem, um dos canais alternativos da ESPN estava transmitindo um torneio de golf. Ok, ok, tudo vale... Mas passar um jogo de golf (“jogo de golf”?) enquanto está rolando jogo da Copa? Quem vai ver isso? Bom, meu chefe ama golf... Parei por aqui.


IH, CARA! A Inglaterra é seleção para a próxima Copa. O melhor do time foi o Sterling, de 19 anos, que ontem fez seu primeiro jogo oficial pela Inglaterra. Mas a Itália, com o experientíssimo e espetacular Pirlo, o midiático Balotelli e mais Marchisio e Candreva, é mais time. Balotelli fez o gol da vitória. A mocinha bonitinha, da equipe do Sportv que faz um programa de conversinhas sobre a Copa, disse que preferia o Imobile (muito mais gato), mas que realmente o Balotelli foi bem. A Globo/Sportv investe no público jovem e no que não entende de futebol, mas acompanha a Copa. Ok, isso é importante, é um público bem considerável, moderniza e humaniza a emissora. O problema é que imagino que quem não entende de futebol, não quer assistir um programa sobre futebol feito por quem também não entende nada de futebol. Posso estar errado, tudo bem. De qualquer modo, um barbudinho com piercing ou algo parecido, que estava comandando o programa que avaliava o jogo Holanda x Espanha, disse “ô cara, eu perdi o jogo, cara. Eu tava dormindo, cara, vê só. Meu irmão não me acordou, cara.” Detalhe, o jogo foi às 16h. Falta de compromisso com o próprio trabalho e esse jeito de quem não se importa também são características importantes para cativar o público? Isso já é demais pra mim, cara, tô fora, cara, fui... cara.

URUGUAI 1 X 3 COSTA RICA – Datena faz denúncia grave e Ganso e Luiz Fabiano incorporam

PAI DE SANTO: Alê Oliveira, comentarista da ESPN, enxerga bem o jogo e apresenta sempre uma coleção de frases de efeito. No Japão 1 x 2 Costa do Marfim, falando de algum jogador: fulano “parece pai de santo iniciante, não acerta um passe”. O leitor mais atento está pensando, com razão, que esse blog é uma bagunça, que o título é do jogo do Uruguai e o post fala do Japão.

GANSO E LUIZ FABIANO FAZEM GOL NA COPA: O pai de santo iniciante estava no jogo do Japão, mas um experiente esteve em Fortaleza, no vestiário da Costa Rica no intervalo do jogo contra o Uruguai (ahá, te peguei, leitor atento!). O jogo não foi no Morumbi, a torcida não pediu Luiz Fabiano, nem Ganso. Mas eles baixaram em Ureña e Campbell. Veja o terceiro gol. Parece um gol do São Paulo, o passe do Campbell é exatamente igual aos passes do Ganso e a conclusão do Ureña é purinha, sem tirar nem por, as do Fabuloso.

FRASE DO DIA: O Campbell não é sopa, não!

COSTA RICA É ZEBRA? Não há, no jornalismo esportivo, quem não tenha atribuído à Costa Rica o papel de saco de pancada  no “grupo da morte”, que tem os campeões mundiais Uruguai, Itália e Inglaterra, mesmo que o Uruguai não vença uma Copa há 64 anos e a Inglaterra há 44. Há que dirá que o Uruguai ficou em terceiro em 2010. Em 2010, naquela Copa horrorosa? Estaria o Uruguai assim tão bem, tendo se classificado para esta Copa na bacia das almas, pegando a última vaga na repescagem? Ter dois grandes atacantes (Soares e Cavani – o primeiro de fora na estréia) justificaria tanto favoritismo? Prandelli, técnico da Itália, perguntado sobre a surpresa que a Costa Rica aprontou contra o Uruguai, fez uma cara de quem discorda e respondeu algo como “supresa? Quem não está acompanhando pode pensar que foi surpresa”. Parece que os comentaristas tiveram preguicinha.

DATENA DENUNCIOU O JOGO: A transmissão da Band foi, disparado, a pior das seis opções disponíveis. Datena é insuportável como narrador. No jogo, formou dupla com o excelente comentarista Edmundo, o “animal”, aquele ex-jogador do Vasco, Palmeiras, Flamengo e Seleção Brasileira da Copa de 98. Edmundo normalmente ajuda a entender o jogo, explica a tática, as opções, o posicionamento e além de tudo se expressa muito bem. Só que o Datena não o deixou falar, monopolizou a transmissão.
Parecia estar no Brasil Urgente, falando sem parar, sem parar, sem parar, tagarelando bobagem atrás de bobagem, com aquele jeitão insuportável. Ele não narra, faz denúncia grave. Denunciou que o gol quase saiu, denunciou que o uruguaio agrediu, denunciou até os gols. Só faltou gritar “foca em mim”. De vez em quando se lembrava do Edmundo e perguntava alguma coisa. Edmundo acordava de repente, meio sem saber o que fazer, como quando entrou no final da decisão da copa de 98, quando a vaca já estava no brejo, no dia em que Ronaldo se borrou. Edmundo pagou seus pecados. Pagar pecados, aliás, é a única vantagem de acompanhar um jogo narrado pelo Datena.


URUGUAIOS NÃO APELARAM: Sem generalizar, como adora fazer o Galvão (não, hoje – estava em Manaus): só dois deles apelaram. Os uruguaios levaram um vareio de bola dos costariquenhos, mas jogaram o que podiam e levaram na boa, com exceção de Maxi Pereira, expulso por um pontapé e outro, creio que Caceres, por uma entrada muito pior, daquelas de quebrar a perna, mas que não foi expulso. 

É isso aí, torcedor da Costa Rica, 3 a 1. Tremam, ingleses!

A COPA QUE PASSA NA TV

O jornalismo esportivo não reúne, como se sabe, a nata dos jornalistas brasileiros. Muito pelo contrário. Analistas como Nelson Rodrigues e João Saldanha, narradores como Ary Barroso, Walter Abrahão, Luciano do Valle ou Geraldo José de Almeida, todos lá em cima, na imagem do blog e mais além, raramente são bem representados cá embaixo. 

A pouca exigência da maioria do público, sem senso crítico para fugir do senso comum e o monopólio nas transmissões podem explicar, ao menos em parte, essa pobreza. O campeonato brasileiro é monopólio da Globo (Sportv) há uns 15 anos. Colocam qualquer um para transmitir os jogos, equipes locais sofríveis: narradores com dificuldades de expressão e comentaristas que se limitam a dizer que time está melhor ou pior, coisa que qualquer um está vendo.

Com a Copa de 2014 no Brasil, várias redes estão transmitindo, duas na TV aberta (Globo e Band) e três na TV paga, Sportv, ESPN e Fox Sports (esta com duas opções). Para grande parte da população há seis opções para cada jogo. Com tanta "falta de talento" no jornalismo esportivo, como as TVs estão disputando a audiência?  Teremos um show de horrores, lugares comuns, chavões ultrapassados e modismos linguísticos? A ESPN, com equipe disparadamente melhor, vai, literalmente, nadar de braçada? 


Aos mais sensíveis, calma: o "literalmente" colocado de forma absurda tem explicação: justo a ESPN deu a primeira escorregada. É detalhe, mas, como disse Esse Cara, detalhes tao pequenos são coisas muito grandes pra esquecer. A praga linguística do momento é o “literalmente”, que deveria apenas diferenciar uma metáfora da acepção original da expressão. Se alguém não entendeu nada, diz-se que “está boiando”, mesmo que não esteja na água. Se a pessoa está na piscina, está literalmente boiando. O ground control da Nasa pede algo a Atmstrong enquanto ele dá pulinhos no solo lunar, mas ele não responde, de tão absorto. Depois de um grito do cara da Nasa, Armstrong ouve e responde “desculpa, pode repetir? É que eu estou no mundo da lua, literalmente". Mas a praga se espalhou pela TV. Um narrador da Sportv disse que o Santos jogava "literalmente com o regulamento debaixo do braço". Imagina a cena: os caras correndo sem balançar os braços para não deixar cair o regulamento. Numa transmissão de F1, Galvão Bueno, transportado à revolução francesa, disse, ao ver uma manobra meio amalucada do Hamilton: “o Hamilton literalmente perdeu a cabeça”.


Uma pessoa qualquer falando bobagem, ok, mas um jornalista? Na TV? Como diria FHC, não dá, não pode. Ainda mais quando o cara tem berço, como André Kfouri, da ESPN, filho do Juca. Estava ele relatando os problemas de tradução simultânea nas entrevistas coletivas dos jogadores da Espanha. O tradutor errava demais. Os jogadores, na sala de entrevistas (não numa piscina), não entendiam as perguntas, sem lógica. André fechou a matéria dizendo que os jogadores espanhóis ficaram “literalmente boiando”.

Pois é. Este blog está aqui para pegar essas pisadas, relatar boas tiradas, criticar ou elogiar transmissões, concordar ou discordar das opiniões “abalizadas” de analistas, ex-árbitros (meu Deus, que praga é essa?), ex-jogadores, narradores e palpiteiros em geral, desafiar o senso comum e brincar um pouco, já que a Copa, por mais que alguns tentem transformar em algo político e que outros encarem como a coisa mais séria do mundo, é, na verdade, uma grande festa, um carnavalzão maravilhoso, um grande desfile de torcidas, um ultra-mega-blaster evento que atrai a todos, mesmo os que passam os outros 4 anos sem ver um único jogo de futebol.